Terapia é um negócio meio irônico. Eu lembro meus sonhos praticamente todo dia e com riqueza de detalhes, lembro do contexto, do cenário, do nome das pessoas que criei. Sei reconhecer os cenários que fui desenvolvendo ao longo do tempo e as influências de determinado filme/série/música/meme neles.
E ontem comentei com a psicóloga que de vez em quando sonhava com minha mãe, mas que meus sonhos estavam "de boas", compreensíveis, frutos de um claro luto.
Isso foi ontem, umas 18h. Tive certa insônia, que tem sido raro hoje em dia, e aí sonhei com ela. Não só com ela, o cenário era algo entre Austrália e Caribe, altas aventuras, tava meu pai, Kinhus, Zilda, mais gente que não lembro, enfim, entrei em uma casa e vi ela. Não estava doente, estava com a roupa da última foto que vi recentemente dela saudável, cabelo mais comprido como antes do câncer, meio como a foto mesmo, a aparência é fácil ver de onde veio.
O que me deixou meio "de onde isso surgiu?" foi o que aconteceu a seguir. Nos vimos e eu percebi que conseguiria abraçar ela, mesmo sabendo que está morta, então abracei forte. Ela brilhava um pouco, mas, de resto, parecia normal e o abraço foi ótimo. Só que ela começou a chorar, um choro sincero, me abraçava afagando e sofria falando:
- Tadinha da minha filha, seu pecado é tão grande!
Tentei acalmar ela, explicar que estava tudo bem e, ao mesmo tempo, tentando entender o que estava acontecendo. Minha mãe nunca gostou do conceito de pecado, então já é uma palavra estranha de imaginar saindo da boca dela. Também não senti como se fosse algo do tipo "você cometeu um absurdo e será punida".
E agora tô eu aqui, cabeçudíssima o dia inteiro, pensando porque diabos, dentre tudo que sonho e consigo entender, sonhei isso, tão fora do comum no meu mundinho lúdico.
Não quero controlar sonho, sei que um cachimbo às vezes é só um cachimbo. Também queria ter tido esse sonho antes da terapia, não logo depois, exatamente por ter ficado encucada com isso.
Que deus tenha piedade dessa nação (minha cabeça). Claramente lidando com um luto forte, mas com a vida boa demais para ter problema criado por sonho? Só um golinho de cinismo para manter aberta a veia artística, tão brega nos dias de hoje (também sou saudosista agora, idade é algo complicado).
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