sexta-feira, 10 de julho de 2026

exausta

 Escrever para pontuar. Muitas coisas me incomodam, algumas em mim, outras no mundo, outras em como os outros se enxergam ou enxergam minha relação.

Depois de muita, muita terapia, me sinto uma pessoa completa. Nada perfeita, mas independente o suficiente para saber que, se acrescento alguém na minha vida, é por amor, não por precisar suprir algo que me falta.

Não tenho sentido o mesmo. Sinto que meu papel, hoje, vem sido reduzido ao que já foi antes, o de compreender quando não me sinto compreendida, o de ter paciência quando levo bronca, o de estar disponível mesmo quando encontro o silêncio. Eu não estou disponível, porque não é essa a minha visão do amor. Não é preencher um buraco ou trazer segurança, não é o de provar a cada instante que eu não estou fazendo nada de errado, eu não estou! 

Acho injusto que minha reclusão seja pessoalmente ofensiva, como se minha existência devesse rodar sim em torno dos outros e, mulher, reclame não! Difícil olhar essa situação sem levar para o lado político, principalmente porque tem. Tem sim uma sensação de que eu deveria fazer mais, porque quando estou agindo por mim não estou agindo por nós. Mas isso só vale para mim. Porque eu estou em débito, eu que teoricamente não perdi nada, não cedo nada, só ganho, ganho, ganho.

Saio de casa todo dia, fico doze horas fora e, nesse tempo, quase todo dia, eu peco. Peco na falta de atenção, na falta de carinho ou até de consideração, não sou atenta o suficiente para ver que são as minhas atitudes, e apenas elas, que definem se as coisas estarão bem ou não.

Tô toda errada, mesmo quando saio de casa pensando em ter só um bom dia de trabalho e um bom retorno para o lar. Tô em débito e me recuso a aceitar essa dívida. Me recuso a aceitar que sou tão otária assim no viver meu dia. Por fazer com outros coisas que, em outros dias, fazem comigo e eu tenho que entender.

Tô cansada.


quarta-feira, 1 de julho de 2026

Escrever também é algo né

 Terapia é um negócio meio irônico. Eu lembro meus sonhos praticamente todo dia e com riqueza de detalhes, lembro do contexto, do cenário, do nome das pessoas que criei. Sei reconhecer os cenários que fui desenvolvendo ao longo do tempo e as influências de determinado filme/série/música/meme neles. 

E ontem comentei com a psicóloga que de vez em quando sonhava com minha mãe, mas que meus sonhos estavam "de boas", compreensíveis, frutos de um claro luto. 

Isso foi ontem, umas 18h. Tive certa insônia, que tem sido raro hoje em dia, e aí sonhei com ela. Não só com ela, o cenário era algo entre Austrália e Caribe, altas aventuras, tava meu pai, Kinhus, Zilda, mais gente que não lembro, enfim, entrei em uma casa e vi ela. Não estava doente, estava com a roupa da última foto que vi recentemente dela saudável, cabelo mais comprido como antes do câncer, meio como a foto mesmo, a aparência é fácil ver de onde veio. 

O que me deixou meio "de onde isso surgiu?" foi o que aconteceu a seguir. Nos vimos e eu percebi que conseguiria abraçar ela, mesmo sabendo que está morta, então abracei forte. Ela brilhava um pouco, mas, de resto, parecia normal e o abraço foi ótimo. Só que ela começou a chorar, um choro sincero, me abraçava afagando e sofria falando:

- Tadinha da minha filha, seu pecado é tão grande!

Tentei acalmar ela, explicar que estava tudo bem e, ao mesmo tempo, tentando entender o que estava acontecendo. Minha mãe nunca gostou do conceito de pecado, então já é uma palavra estranha de imaginar saindo da boca dela. Também não senti como se fosse algo do tipo "você cometeu um absurdo e será punida". 

E agora tô eu aqui, cabeçudíssima o dia inteiro, pensando porque diabos, dentre tudo que sonho e consigo entender, sonhei isso, tão fora do comum no meu mundinho lúdico.

Não quero controlar sonho, sei que um cachimbo às vezes é só um cachimbo. Também queria ter tido esse sonho antes da terapia, não logo depois, exatamente por ter ficado encucada com isso. 

Que deus tenha piedade dessa nação (minha cabeça). Claramente lidando com um luto forte, mas com a vida boa demais para ter problema criado por sonho? Só um golinho de cinismo para manter aberta a veia artística, tão brega nos dias de hoje (também sou saudosista agora, idade é algo complicado).

sexta-feira, 20 de março de 2026

reaprender

 Parece que estou jogando Vida 2.0, porque é como reaprender tudo, uma das consequências de tentar desfixar as coisas que aprendi na vida, boas e ruins, uteis e inuteis, enfim, aquele papo de sempre, tentar me conhecer e reconhecer a todo momento.

Aprendi que tudo é movimento, o que é o mesmo que pensar que tudo vai dar errado, depois tudo certo, depois errado, e assim vai por toda uma vida. Acho uma vição inclusive realista, pelo menos por enquanto, então sigo nela.

E é por isso que não sei se estou compensando o inferno do ano anterior ou esperando a próxima tempestade. Veja, pessoa, minha vida está bem. Pode ficar ótima, claro, mas estou estudando, trabalhando, namorando e, principalmente, me amando. Na medida do possível.

Me parece certo, para alguém que desde criança é neurótica, imaginar no que vai mudar primeiro. Não vou dar conta do emprego? Vou reprovar na faculdade? Meu namorado decididamente vai enjoar de mim mesmo que me conheça há quase tanto tempo quanto esse blog. Meu pai não fica cada ano mais novo. São muitas coisas que podem dar errada e eu, como a boa ansiosa que sou, perco tempo pensando em cada uma delas.

Quero ser mais positiva, tenho tentado e gasto um dinheirinho semanal em terapia para tentar me tornar algo mais próximo daqui que eu, e somente eu, quero ser. Aprender a gostar, mas também adaptar, mudar, melhorar, sei lá.

O instinto ou só as coisas como são, uma hora tudo vai mudar, não sei por que lado. Como estou num ápice, isso me assusta, mas é mais uma questão de parâmetro, de nem me considerar merecedora de mais do que tenho recebido, já recebo tanto.

Claro, perdi 3452 pessoas que amo em 2025, estava na hora de ter um pouco de chamego do universo, mas quanto de prazo bom tenho nesse equilíbrio divino?

Que papo de maluca, amigos. Na terça elaboro melhor (comigo mesma). 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Pontinhos no céu

 Comecei no trabalho novo, um trabalho bom, e tem sido bom entender que o passado de ansiedade incapacitante não passa disso, passado. 

A vida anda perfeita. Tão perfeita que, naturalmente, não vai durar muito tempo. As mudanças estão vindo, as que eu queria e as que não, e eu vou ter que lidar com todas elas.

Ando feliz. E brava, que é melhor que ser triste. E triste, mas só quando não quero ser brava.

Hoje é um dos dias que estou um pouco triste, porque uma das coisas que tem me deixado mais feliz passa a ter data para acabar. Eu sabia que aconteceria, lógico, mas isso não diminui muita coisa. Meu lado criança birrenta fica gritando dentro da cabeça "eu quero desse jeitooooo!" que nem aquelas propagandas incentivando usar camisinha.

Mas a vida não acontece como eu quero, é mais como tem que ser. Eu sei que vou passar por qualquer coisa porque não quero me permitir parar. Mas alguém cala a boca dessa criança!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Doismilevinteeseis

Só nos últimos cinco meses

Eu já morri umas quatro vezes

Ainda me restam três vidas pra gastar

Só nos últimos cinco meses

Eu já morri umas quatro vezes

Ainda me restam três vidas pra gastar

Era um mar vermelho

Me arrastando do quarto pro banheiro

Pupila congelada

Já não sabia mais de nada

É besta assim, esse quase morrer

Desconsertante perceber

Que as coisas são

E tudo floresce a despeito de nós

Pálido, doente

Rendido e decadente

Viver parece mesmo

Coisa de insistente

A postura combativa

Ainda tô aqui viva

Um pouco mais triste

Mas muito mais forte

Agora que eu voltei

Quero ver me aguentar

Só nos últimos cinco meses

Eu já morri umas quatro vezes

Ainda me restam três vidas pra gastar

Só nos últimos cinco meses

Eu já morri umas quatro vezes

Ainda me restam três vidas pra gastar

A caixa de sombra se abriu

Foi um maremoto atrás do outro

Ferro na jugular

Tirando tudo do lugar

Se coisa ruim faz a gente crescer

E todo esse clichê

Já nem caibo mais na casa

Não caibo mais aqui

Pálido, doente

Rendido e decadente

Viver parece mesmo

Coisa de insistente

A postura combativa

Ainda tô aqui viva

Um pouco mais triste

Mas muito mais forte

Agora que eu voltei

Quero ver me aguentar

Só nos últimos cinco meses

Eu já morri umas quatro vezes

Ainda me restam três vidas pra gastar

Só nos últimos cinco meses

Eu já morri umas quatro vezes

Ainda me restam três vidas pra gastar

Pra gastar

Pra gastar

Só três vidas pra gastar

Pra gastar