quarta-feira, 1 de julho de 2026

Escrever também é algo né

 Terapia é um negócio meio irônico. Eu lembro meus sonhos praticamente todo dia e com riqueza de detalhes, lembro do contexto, do cenário, do nome das pessoas que criei. Sei reconhecer os cenários que fui desenvolvendo ao longo do tempo e as influências de determinado filme/série/música/meme neles. 

E ontem comentei com a psicóloga que de vez em quando sonhava com minha mãe, mas que meus sonhos estavam "de boas", compreensíveis, frutos de um claro luto. 

Isso foi ontem, umas 18h. Tive certa insônia, que tem sido raro hoje em dia, e aí sonhei com ela. Não só com ela, o cenário era algo entre Austrália e Caribe, altas aventuras, tava meu pai, Kinhus, Zilda, mais gente que não lembro, enfim, entrei em uma casa e vi ela. Não estava doente, estava com a roupa da última foto que vi recentemente dela saudável, cabelo mais comprido como antes do câncer, meio como a foto mesmo, a aparência é fácil ver de onde veio. 

O que me deixou meio "de onde isso surgiu?" foi o que aconteceu a seguir. Nos vimos e eu percebi que conseguiria abraçar ela, mesmo sabendo que está morta, então abracei forte. Ela brilhava um pouco, mas, de resto, parecia normal e o abraço foi ótimo. Só que ela começou a chorar, um choro sincero, me abraçava afagando e sofria falando:

- Tadinha da minha filha, seu pecado é tão grande!

Tentei acalmar ela, explicar que estava tudo bem e, ao mesmo tempo, tentando entender o que estava acontecendo. Minha mãe nunca gostou do conceito de pecado, então já é uma palavra estranha de imaginar saindo da boca dela. Também não senti como se fosse algo do tipo "você cometeu um absurdo e será punida". 

E agora tô eu aqui, cabeçudíssima o dia inteiro, pensando porque diabos, dentre tudo que sonho e consigo entender, sonhei isso, tão fora do comum no meu mundinho lúdico.

Não quero controlar sonho, sei que um cachimbo às vezes é só um cachimbo. Também queria ter tido esse sonho antes da terapia, não logo depois, exatamente por ter ficado encucada com isso. 

Que deus tenha piedade dessa nação (minha cabeça). Claramente lidando com um luto forte, mas com a vida boa demais para ter problema criado por sonho? Só um golinho de cinismo para manter aberta a veia artística, tão brega nos dias de hoje (também sou saudosista agora, idade é algo complicado).

sexta-feira, 20 de março de 2026

reaprender

 Parece que estou jogando Vida 2.0, porque é como reaprender tudo, uma das consequências de tentar desfixar as coisas que aprendi na vida, boas e ruins, uteis e inuteis, enfim, aquele papo de sempre, tentar me conhecer e reconhecer a todo momento.

Aprendi que tudo é movimento, o que é o mesmo que pensar que tudo vai dar errado, depois tudo certo, depois errado, e assim vai por toda uma vida. Acho uma vição inclusive realista, pelo menos por enquanto, então sigo nela.

E é por isso que não sei se estou compensando o inferno do ano anterior ou esperando a próxima tempestade. Veja, pessoa, minha vida está bem. Pode ficar ótima, claro, mas estou estudando, trabalhando, namorando e, principalmente, me amando. Na medida do possível.

Me parece certo, para alguém que desde criança é neurótica, imaginar no que vai mudar primeiro. Não vou dar conta do emprego? Vou reprovar na faculdade? Meu namorado decididamente vai enjoar de mim mesmo que me conheça há quase tanto tempo quanto esse blog. Meu pai não fica cada ano mais novo. São muitas coisas que podem dar errada e eu, como a boa ansiosa que sou, perco tempo pensando em cada uma delas.

Quero ser mais positiva, tenho tentado e gasto um dinheirinho semanal em terapia para tentar me tornar algo mais próximo daqui que eu, e somente eu, quero ser. Aprender a gostar, mas também adaptar, mudar, melhorar, sei lá.

O instinto ou só as coisas como são, uma hora tudo vai mudar, não sei por que lado. Como estou num ápice, isso me assusta, mas é mais uma questão de parâmetro, de nem me considerar merecedora de mais do que tenho recebido, já recebo tanto.

Claro, perdi 3452 pessoas que amo em 2025, estava na hora de ter um pouco de chamego do universo, mas quanto de prazo bom tenho nesse equilíbrio divino?

Que papo de maluca, amigos. Na terça elaboro melhor (comigo mesma). 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Pontinhos no céu

 Comecei no trabalho novo, um trabalho bom, e tem sido bom entender que o passado de ansiedade incapacitante não passa disso, passado. 

A vida anda perfeita. Tão perfeita que, naturalmente, não vai durar muito tempo. As mudanças estão vindo, as que eu queria e as que não, e eu vou ter que lidar com todas elas.

Ando feliz. E brava, que é melhor que ser triste. E triste, mas só quando não quero ser brava.

Hoje é um dos dias que estou um pouco triste, porque uma das coisas que tem me deixado mais feliz passa a ter data para acabar. Eu sabia que aconteceria, lógico, mas isso não diminui muita coisa. Meu lado criança birrenta fica gritando dentro da cabeça "eu quero desse jeitooooo!" que nem aquelas propagandas incentivando usar camisinha.

Mas a vida não acontece como eu quero, é mais como tem que ser. Eu sei que vou passar por qualquer coisa porque não quero me permitir parar. Mas alguém cala a boca dessa criança!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Doismilevinteeseis

Só nos últimos cinco meses

Eu já morri umas quatro vezes

Ainda me restam três vidas pra gastar

Só nos últimos cinco meses

Eu já morri umas quatro vezes

Ainda me restam três vidas pra gastar

Era um mar vermelho

Me arrastando do quarto pro banheiro

Pupila congelada

Já não sabia mais de nada

É besta assim, esse quase morrer

Desconsertante perceber

Que as coisas são

E tudo floresce a despeito de nós

Pálido, doente

Rendido e decadente

Viver parece mesmo

Coisa de insistente

A postura combativa

Ainda tô aqui viva

Um pouco mais triste

Mas muito mais forte

Agora que eu voltei

Quero ver me aguentar

Só nos últimos cinco meses

Eu já morri umas quatro vezes

Ainda me restam três vidas pra gastar

Só nos últimos cinco meses

Eu já morri umas quatro vezes

Ainda me restam três vidas pra gastar

A caixa de sombra se abriu

Foi um maremoto atrás do outro

Ferro na jugular

Tirando tudo do lugar

Se coisa ruim faz a gente crescer

E todo esse clichê

Já nem caibo mais na casa

Não caibo mais aqui

Pálido, doente

Rendido e decadente

Viver parece mesmo

Coisa de insistente

A postura combativa

Ainda tô aqui viva

Um pouco mais triste

Mas muito mais forte

Agora que eu voltei

Quero ver me aguentar

Só nos últimos cinco meses

Eu já morri umas quatro vezes

Ainda me restam três vidas pra gastar

Só nos últimos cinco meses

Eu já morri umas quatro vezes

Ainda me restam três vidas pra gastar

Pra gastar

Pra gastar

Só três vidas pra gastar

Pra gastar

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Retrospectiva 2025 - Tá tranquilo, deixa comigo!

 Mas que aninho! Muita coisa aconteceu, do bom ao ruim, mas não vou mentir que mais pro ruim (perdi muita gente). 

Ainda assim avancei muito, ano de gente brava e eu fui brava. Sigo na faculdade, sigo nos trampos, ajudando meu coroa, tentando me conhecer melhor. O ano foi ruim, mas tô feliz comigo. 

Vamos lá.

Janeiro!

Ganhei um pote de biscoito da minha mãe, daqueles redondos de metal, me lembrou da vó Zilda e eu chorei, feliz. Foi um mês cheio, tava trabalhando para o portal, fazendo transcrições, cuidando do airbnb aqui e ainda tentando agilizar o que conseguia (à distância) para o casamento da Manu. Minha mãe tava com o tratamento meio em pausa pelo recesso de fim de ano e eu fiquei levemente desesperada com isso, mas depois rolou (a continuidade do tratamento, no caso, porque, spoiler, minha mãe morreu). 

Também saí com um pessoal e fomos conhecer um lugar novo onde pessoas ficam mascaradas fazendo coisas que adultos fazem. Foi divertido, até.

Fevereiro!

Mês começou comigo chegando em Curitiba, ou seja, aquela farra de sempre, trombar Kinhus, o povo, dei uma discutida com um amigo e até hoje tô orgulhosa porque mandei demais na briga (já estamos de boas). Lá passei pelo casamento da Manu (foi ótimo), dei uns beijos de bêbada num amigo (foi ok), arranjei um crush que falo até hoje (bonitão ele, mas nunca nem beijamos, risos) e, muito importante, me matriculei na faculdade (mas as aulas só começariam em abril). Curti Curitiba sabendo que ficaria um belo tempo sem voltar, até porque Zil estava se mudando para Aracaju, então seria uma pessoa da família a menos para ver (visto que minha outra irmã de lá vem para cá com certa frequência). No fim do mês me demiti do portal.

 Março!

Fiquei até dia 18 em Curitiba, o que, olhando agora, parece meio inacreditável. Quando voltei para casa, sem emprego e com a bagunça de quem tem bicho e passou um tempo fora, passei um tempo resolvendo minha vida, reestabelecendo as coisas, cuidando dos meus coroas. Também recebi Manu e Otávio aqui uns dias, o que foi super legal. Foi um mês bom, no geral, saí com os amigos daqui, peguei uma praia, curti meus pais. Foi um mês bom. No último dia do mês, minhas aulas começaram e dei início ao primeiro semestre em jornalismo (pela terceira vez na vida). 

Abril!

Nesse tempo todo eu estava escrevendo um livro que, no fim do ano passado, fui contratada para fazer. A meta final era Abril e, no dia 30 do mês, finalizei ele. Tudo isso enquanto passava a me inteirar das mídias do momento (Ainda estou aqui, muito bom, e Wicked, suficientemente ok). No dia 12, perdi minha prima Fafá, seria a primeira morte do meu ano, o que eu ainda não sabia, e ela se foi de repente, então fiquei meio sem chão. 

Maio!

No dia 3 minha mãe foi para o hospital e passei a noite lá com ela. Foi esquisito, dolorido e ela estava doida de morfina, mas consegui fazer ela rir em vários momentos e ela repetiu muitas vezes como se sentia grata por conseguir ser feliz numa situação daquela (a morfina com certeza ajudou). Foi aí que percebi que minha mãe não teria muito tempo e passei a ter medo que ela morresse próximo ao meu aniversário, porque isso teria capacidade de me marcar para sempre. Felizmente não aconteceu, ela voltou para casa, Luiza veio para cidade e conseguimos passar um bom e último dia das mães. Meu aniversário foi perfeito, virei a noite na praia com Vitor e Pedroso e, se melhorasse, estragava. Também recebemos a notícia que, depois de muitos anos de espera, um estuprador que denunciamos como família foi preso. No último dia do mês, mais uma perda, Otávio, amigo da família desde que me conheço por gente. 

Junho!

No começo do mês tive ótimos momentos com minha mãe, fiquei muito na casa dos coroas porque sempre tinha que ter alguém com ela, foi um momento bem cansativo, mas cheio de boas lembranças, sei lá, quando a gente sabe que algo vai durar pouco a gente valoriza mais? 

Então, no dia 16, ela voltou para o hospital, dolorida, confusa, a única ali que não sabia que ela estava partindo. Me despedi dela no hospital, quando a morfina começou a fazer efeito e sua dor diminuiu, e é um dia de memórias muito doloridas. Lá para as duas da manhã do dia 17 ela morreu, dormindo, meu pai do lado, e foi a última vez que vi minha mãe com vida. Não chorei, passei pelo velório rindo e fazendo muita piada, mas deixando claro para todos: eu estava com raiva, meu sentimento era, naquele momento e por um bom tempo depois, raiva. E a certeza de que, se existir algum deus, ele/ela vai se ver comigo quando for a hora. 

Mas a vida precisava seguir, e seguiu. Meu tio Barney veio para a cidade, o que foi ótimo e distraiu meu pai no momento certo. Fomos para o São João, soltei altos fogos; fui na igreja messiânica, a qual não sigo, mas minha mãe gostava, para rezar por ela; o resto foi burocracias com advogados, pensões, inventários, etc.

Julho!

Segundo semestre da faculdade, muita correria de advogado e, por um acaso da vida, meus dois tios paternos estavam indo para um festival na Barra do Cunhaú (onde um deles mora) e eu, meu pai e Zil fomos e lá é um local incrível. Tava vivendo o luto, mas sofrendo comendo ostra.

Agosto!

No começo do mês fui no casamento de Bia e foi lindo. Minha irmã Bela veio com a família para cá, fazia mais de quinze anos que não os via! Foi bom ser mimada por uma irmã mais velha, Bela presta atenção nas coisas mesmo quando parece que não e, em uma que ouviu que eu gosto de cavalo, me levou para andar em um (anos que eu não fazia isso!), foi ótimo. Curti bastante a presença deles aqui, meus sobrinhos também são ótimos! Só que, nesse tempo, perdi o melhor gato que já tive na vida, o Fora-da-Lei, de um dia para o outro e até hoje choro aleatoriamente por isso. 

Setembro! 

Bela voltou para casa e eu saciei toda (ou boa parte) da minha vontade por vingança vendo o julgamento do genocida do Bolsonaro. Também recebi a Amandinha aqui em casa, Zil veio dormir aqui alguns dias, dei uma focada forte na faculdade e a vida foi basicamente dia após dia tentando viver feliz.

Outubro!

Sinto que foi aqui que minha cabeça voltou a entrar nos eixos (ou pelo menos na minha loucura normal). Voltei a usar minha agenda, me disciplinei a escrever um pouco mais, ajeitei algumas coisas na casa que melhoraram um tanto minha qualidade de vida. Quando tudo parecia estar se ajeitando, no dia 19 o meu amigo Aurélio foi assassinado pela polícia, dentro da própria casa, com todos os jornais difamando e mentindo sobre a história. Então boa parte do fim do mês foi engolir minhas mágoas sobre Matinhos e conversar com qualquer pessoa que fosse necessário para tentar contar a história real para o máximo de pessoas possível. 

E então o início dos aniversários da minha família, anunciando a iminência do fim do ano. 

Novembro!

Começou, por sorte novamente, com meus tios paternos aqui na cidade, curtimos muito, fomos na Croa do Goré, fomos no cinema assistir O Agente Secreto (meu tio tá no filme), conheci uns atores e atrizes que admiro bastante, foi um tempo bom. Também rolou o Pré-Caju e foi massa, zero crise de ansiedade independente do calor absurdo e subi num trio elétrico pela primeira vez. 

No meio do mês eu finalizei o segundo semestre da faculdade, passando enfim o meu recorde pessoal de curso de jornalismo. 

Dia 22, Bolsonaro preso. Foi uma delícia.

Também fui atrás de emprego, consegui um trabalho freelancer que vai até fim de dezembro e fui em uma entrevista que acabou rendendo outra entrevista. 

Dezembro!

Foi um mês bem cheio, bastante trabalho, a chegada do Kinhus (com três dias de atraso graças ao ciclone em São Paulo) e, com a chegada dele, nosso novo hábito de ir para casa do meu pai andando (ou às vezes voltar, de noite e bêbados, é ótimo). Ontem foi aniversário dele e passamos um dia bom com meu pai, Sheila, Vitor, Iago e Thaís, pegamos piscina, praia, piscina de noite, enfim, dias bons. 

 

Não sei o que vai ser do futuro, mas, depois de um ano onde boa parte dos meus medos se concretizarem e ainda estou aqui, bom... ainda estou aqui. Mais triste, mas mais confiante e, sem dúvidas, bem mais forte. Espero conquistar mais coisas em 2026, ver qual dos dois bons empregos que me foram oferecidos vai fazer mais sentido com o que busco, terminar meu terceiro e quarto semestre, fazer uma tatuagem nova porque não aguento mais essa abstinência eeee cuidar mais da minha saúde. Vai ser um bom ano, nem que seja na marra.

 

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Rodeada pela morte

 No domingo o Aurélio foi morto pela polícia. Eu poderia suavizar as palavras, mas nunca foi do meu feitio e a realidade é essa: no domingo, último, Aurélio foi morto pela polícia. Com três tiros. Na própria casa. 

É tipo mais um dos medos realizados, dos milhões desse ano (o que, acharam que não seria mais um texto sobre mim? Respeitem meu local de entendimento, por favor). Eu perdi minha mãe, perdi meu gato mais "meu", perdi uma prima, um tio de consideração, um amigo da família, meu escritor preferido, em 2025 muitas das pessoas que eu amava perderam a chance de continuar por aqui, a maioria delas sei que queria mais anos. E, domingo passado, perdi o Aurélio, um dos amigos de Matinhos que nunca questionei a amizade, alguém que vi depois de sair de lá, que fez questão de me ver. Falei com ele semana passada, sabe?

A morte da minha mãe me traz raiva, mas eu não encontro culpados. Na morte do Fora-da-Lei eu só consigo culpar a mim. Quando Iago me falou, logo depois do horário da minha terapia (também conhecido como 'horário em que tudo dá errado'), que Aurélio morreu, a primeira coisa que pensei foi "caramba, eu achava que ele tinha vencido o câncer!". E tinha, eu não estava errada. Eu lembro de, mesmo de longe, acompanhar que ele estava de cama, morrendo de dor, vivendo à base de morfina legalizada até liberarem a cirurgia que ele precisava. Liberada, ele reviveu, e nisso veio essa minha falsa segurança de que ele estava fora de perigo.

Só que eu esqueci que eu vivo no planeta Terra, país Brasil. Esqueci que ele vive em uma cidade minúscula, com forte coronelismo, num país racista quando convém (e geralmente convém). 

E é isso que eu não engulo. Um cara com a história dele, com o caráter dele, vi otário no Facebook "ain porque Aurélio quando era morador de rua em 1986 (!!!) era cuzão", velho, um foda-se do tamanho do mundo, eu conheci o Aurélio do presente, o que eu gostava de falar "ah, mas tal opinião é porque você é chato, né, Aurélio (risos)" e ele levava na boa. Eu tive tanta dificuldade em me expressar e entender os outros em Matinhos, ele era uma das pessoas fáceis de entender, ele comunicava o que pensava, sem joguinho, sem tentar ofender ninguém, mas certo da sua opinião. Levou isso até o fim, um viciado em cuidar de animais (elogio dramático) que morreu tentando proteger um bicho que não era nem dele, o único que, desde que o conheço, morreu sem conseguir salvar. 

A morte me dói sempre por tudo aquilo que foi tirado de quem se foi. Partida natural ou não, acho meio inevitável não pensar no quanto quem se foi gostaria de ver ou viver tal coisa. Penso nisso todo dia em relação minha mãe e, desde domingo, sobre Aurélio. 

Se eu pudesse falar algo para ele, diria que a Cler e mais amigos que ele fez em Matinhos garantiram a segurança dos bichos dele. Diria que sinto muito não ter respondido todo e cada vídeo de internet mandado, mas que agradeço ter falado com ele há duas semanas. E agradeço que ele cuidou da Bolota quando, se não fosse ele, ela morreria na nossa mão, independente de qualquer boa intenção. Agradecer os jogos de xadrez e que ele nunca se incomodou com meu jeito de ser, mesmo quando eu era implicante e dava bronca, coisas que faço com gente que gosto. 

Foi legal quando a gente se encontrou no MON, em Curitiba, num contexto fora de Matinhos, ele estava no tratamento, vivia sentindo dor e, embora falasse sobre isso, era sempre com um sorriso no rosto, um negócio genuíno. Acho que é a palavra que me remete ele, é uma das qualidades que mais admiro: Aurélio era genuíno. 

Eu vou sentir sua falta, amigo, de verdade. Mesmo longe, era feliz de saber que compartilhava o mundo com você. Você foi arrancado de muitos de nós, não consigo nem imaginar como está a cabeça do pessoal de Matinhos que vivia contigo dia a dia. Você vai fazer muita falta, o planeta é um lugar pior agora. De novo. 

Se existir algo depois da vida, espero que você esteja bem, espero que esteja se sentindo amado e acolhido. Fico pensando nos seus últimos segundos, é quase tortura, mas não consigo evitar. Você devia estar amedrontado, Aurélio, eu sinto muito, muito, que você tenha passado por isso. Se ainda estiver com a gente de alguma forma, então essa mensagem, qualquer mensagem, preciso acreditar que possa chegar até você. Senão, não importa mais, tudo se trata de, mais uma vez, engolir o luto, honrar sua memória e tentar evitar os próximos enquanto as lágrimas ainda caem. 

Vai em paz, amigo, deixa a guerra com a gente. Sinto muito, de novo, pela sua forma de partir. Nunca vou te esquecer.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Escrevendo para entender

O tempo está passando e, mesmo que eu também esteja me movimentando, a sensação é de que tudo ainda é uma junção esquisita de realidade e sonho. 

Faz tempo que não escrevo aqui, mas não quer dizer que andei parada. Na verdade, em relação à escrita, tenho até tentando "aquecer", me propondo alguns exercícios e tentando cumprir.

Sinto que o ano está acabando, porque ele está. Um ano que comecei com minha mãe e terminei sem. Na verdade (Facebook me lembrou há uns dois, três dias), há um ano ela estava pintando a mandala na parede externa da própria casa, a mesma que hoje virou uma Poke Parada (?), algo bobo, mas que me deixa feliz, de alguma forma ela pintou algo sem expectativa e alguém de fora notou, registrou. Acho isso legal. 

Nesse ano perdi minha mãe e meu gatinho Fora da Lei, o meu linguinha de fora. Foi um ano difícil. Foi um ano difícil.

Ao mesmo tempo, tanta coisa boa aconteceu, num nível que se eu listar vou esquecer várias. Sempre senti a existência como ciclo, morte e vida, não faço ideia do que estou fazendo aqui, mas, com a morte da minha mãe, naquela relação de muito amor e ódio do tamanho desse amor, meus maiores medos se concretizaram, todos aqueles que deeeesde criancinha tentei abafar. E eu ainda estou aqui, tropeçando, aprendendo. 

Acho que não tem como fugir de alguns clichês. A vida é movimento porque acaba, a morte impulsiona a vida, tanto faz, a grande questão é, hoje, que já já pode mudar: minha mãe morreu, eu sofro, mas continuo, só que continuo mais esperta, corajosa e, principalmente, salafraia (adoro essa palavra).

Tenho muito para dizer, mas entrei num caminho que não me sinto à vontade de expôr aqui, que é triste, porque sempre foi aqui onde escrevi para definir o que eu acreditava ou não. 

Fica para a próxima, então, online ou offline. Tchau, amiguinhos!!!