quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Quando a bifobia vem de todos os lados

Primeiramente (fora Temer?) quero dizer que esse é um texto de opinião. Não falo verdades, não falo mentiras e você, ó ser do outro lado da tela, pode se sentir à vontade de concordar ou discordar, por ser livre a reflexão. :)


Ultimamente tenho notado um aumento de textos sobre "bissexuais fakes", pessoas que se dizem bi mas se relacionam com pessoas do gênero oposto, portanto estariam em uma posição de privilégio. Quase como os 'infiltrados do movimento'. Em tons de acusação, cobrança ou escárnio, esses textos acusam homens e mulheres bissexuais de iludirem pessoas do mesmo gênero, de só se envolverem emocionalmente com o sexo oposto, de vestirem uma máscara de bissexuais para terem o ''''privilégio de entrar no meio LGBT'''' (???), entre outros.
O meu espanto é que papos como esses não estão sendo difíceis de encontrar dentro do próprio movimento, como se estivesse acontecendo algum campeonato de opressão onde todos olhassem para o/a bissexual apontando e gritando: VOCÊ NÃO SOFRE TANTO QUANTO NÓS!
A ideia desse texto não é dizer que bissexuais sofrem mais ou menos do que as outras vertentes de sexualidade, acho impossível colocar essas coisas em consideração sem contextualizar o indivíduo em si, sua história e vidas. Tampouco quero polemizar. A ideia desse texto, como todos os meus outros aqui, é externalizar, e também trazer alguns pontos de reflexão que podem ser úteis para trabalhar a empatia de alguns queridos e queridas que gostam de apontar os dedos.


Primeiro, gostaria de falar sobre heterossexualidade compulsória. Sabem, aquele conceito de que existe toda uma sociedade empurrando a heterossexualidade na nossa guela? Falamos muito nele, não é? Parece que todo mundo nasceu na sociedade da heterossexualidade compulsória, menos quem? Isso mesmo, os bissexuais! Esses danadinhos e danadinhas não! Eles cresceram super cientes de suas preferências, bem como tiveram todo o apoio da família e amigos, além de várias oportunidades para explorar tudo que quiseram. E ainda se relacionam com o sexo oposto? Privilegiados!
Nos últimos tempos parei para refletir sobre eu mesma e sobre outras amigas e amigos bissexuais que conheço. É verdade que a maioria se relaciona hoje com pessoas do sexo oposto. Também é verdade que toda e qualquer reflexão sobre esse fato é muito válida. Mas chamar de privilégio, gente? Dizer que alguém "se diz" bi? 
Se uma mulher é ensinada a vida inteira de que o prazer dela por outras mulheres só pode acontecer em prol de homem, isso é confortável? Mais uma vez tomando o cuidado de dizer que isso não é uma competição de opressão, mas peraí, ser bissexual muitas vezes é reprimir várias de suas vontades, não porque é "conveniente", mas porque é perigoso, ou porque traz medo. Em que sociedade que vocês vivem que é fácil se assumir não-hétero, galera?
Raríssimas vezes vejo militantes bissexuais na causa. Não é que não existam, mas com frequência percebo bissexuais simplesmente não abrindo o jogo sobre suas vontades e prazeres. Pro hétero, bissexual é gay/lésbica, pro movimento, bissexual é hétero. E é ruim ter poucos textos falando no assunto, poucas rodas para tratarem exclusivamente da bissexualidade, ter que provar do que gosta ou não pra gente que nada tem a ver com isso, é ruim, não agrega.

Vejo direto movimentos sociais dividindo, dividindo, dividindo. Não vejo problema em diversos rótulos pras coisas, se isso ajudar as pessoas a se encontrarem, mas quando as caixinhas que deveriam estar juntas começam a se separar e brigar e desacreditar, bom... É ruim.

Não se trata de pedir para que parem de ter 'medo' de bissexuais, ou que parem as reflexões sobre atitudes que devemos pensar e repensar. Entendo que tenha muita mina e cara que já foi enganado por bissexual, deixado de lado por alguém do sexo oposto, enfim, tem várias histórias. Mas não se pega um indivíduo e transforma num coletivo, assim como não se questiona a sexualidade de alguém porque "não quis ficar comigo" ou está ""num relacionamento hétero"" ou """tá se pagando de bi""", isso é tipo uma regra básica de educação, não? A gente não precisa disso, na moral, gastemos nossa energia em coisas mais benéficas.

Trazendo pro meu pessoal, eu teria sido muito mais completa de mim e dos meus gostos se desde a primeira vez que beijei uma menina eu tivesse olhado para dentro e assumido "gostei". Melhor ainda se eu pudesse ter olhado para minha família e assumido "gostei" (algo que tive coragem de fazer apenas no ano passado (!!!!!!!!!!)). Mais daora ainda seria poder olhar pro movimento que poderia ter me acolhido e dito "gostei", mas dos meus quinze anos até hoje encontro aí a maior dificuldade, e as vezes sinto que é melhor assim. É melhor me fingir de hétero, abafar aquilo que sinto, esconder até das pessoas que estão próximas de mim. É mais "confortável".




Textos para reflexões
Aqui
Aqui
e Aqui
e por último esse aqui que eu gostaria de ter escrito


P.s.: Quando falo de homens ou mulheres estou falando tanto de cis quanto de trans, só poupei os "*" porque não acho necessário agora

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